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Gerda: SELF EM TRÂNSITO

De uns tempos pra cá Ela mudou completamente. Tinha um casamento meia boca, dizia entender de amor, dizia sempre alguma coisa nova de amor. O amor era como um gelo a derreter em sua boceta quente. Diziam que era uma mulher de dar medo em qualquer um e Ela alimentava esse mito, falava sempre de relações amorosas que nada tinham a ver com o cônjuge em questão. Adorava contar de seus amores, um mais gostoso do que o outro, mas sempre na terceira pessoa. Quadro de Gerda Wegener (1986-1940) Um dia assumiu que estava com problemas conjugais, com um sorrisinho blasé , como se não fizesse parte daquilo. Dizia que talvez ele tivesse outra e que ia acabar com aquela porra enquanto dava uma talagada no copo grande de cerveja. Bebia como ninguém. Esse contraste deixava todo mundo doido e turma fazia um bolão pra saber com quem aquela mulher ia descontar a raiva do marido, não era possível que ela não ia fazer alguma cagada. E ra o mistério em pessoa. Os homens se mostravam muito s...

Ficção de todo o dia VI

Deixa eu te contar essa. Uma vez eu pedi um Glória a Deus lá na reunião. Todo mundo calado. Eu pedi mais uma vez: eu quero ouvir bem alto, agora é pra falar com toda a fé que tem no peito, bora lá, Glória a Deus. Todo mundo calado.  Aí eu comecei a ficar puto.  Mas o senhor meu Deus sabe das coisas, mandou um mensageiro divino assim do meu lado e professei uma parábola que nem eu sabia.  Vocês conhecem Malaquias? Que era filho de Zacarias, irmão das três Marias e do Golias, filho de uma das tias, não sei qual, mas que era parente de terceiro grau de Jesus?  Fico todo arrepiadao só de falar. Pois bem, ele vinha andando pelas oliveiras sozinho, naquele caminho por onde passou Judas, vocês sabem a história, num silêncio quando de repente ouviu: por onde anda teus pensamentos Malaquias, filho de Zacarias, irmão das três Marias e do Golias, filho de uma das tias, não sei qual, mas que é parente de terceiro grau de Jesus, não sabes que sempre deves andar em oração...

Ficção de todo dia V

Ela me disse uma vez que preferia morrer do que ter que deixar aquela casa pra todos os filhos, tu acreditas? Credo mana, quem te disse isso? Eu ouvi da boca dela, não mandou recado, te juro. Meu queixo quase caiu quando falou isso. Mas ela vai ter que morrer pra casa ir pros filhos, né? Sim, mas tu entendeste o que ela quis dizer, né? Entendi, quer levar a casa pro túmulo, isso porque foi ela que pariu, valha-me Deus. Quando os meninos eram crianças ela dava de cipó neles, os bichinhos pulavam o muro de casa fugindo dela, uma vez deu com uma colher quente na cabeça de um zinho lá que até hoje tem as marcas daquilo... Eu hein, tem gente que não nasceu pra ter filho... É, mas a vida dela não foi fácil também. Contou pra mim que os meninos só faltavam deixar ela doida, tinha um que até botar fogo na cama dela botou. Sangue de Cristo. É, diz que esse que fez isso era igualzinho a ela, os outros meninos tinham até medo dele, pulavam o muro também pra fugir desse menino... Será que...

Ficção de todo dia IV

Quando eu era pobre tinha que dividir um pão pra dez! Lá vem a senhora contar mentira pra cá... Tu não acreditas? Aaaaaah, tu não sabes o que é um couro. Como assim? Nunca ouviu essa expressão? Eu não. Um couro é quando a gente diz que a nossa pele fica curtida - que nem de boi - de tanto arder, a fome arde nas tripas, sabia? Arde nas tripas, já dizia a minha mãe. Toda vez que eu dizia que não queria aquele pão velho ela me dava um cascudo e dizia essa frase, parece que sinto a aquele cascudo,  daí ela pegava o pão e a gente dividia. Mas a vovó disse que lá no interior do Marajó tinha fartura, vocês podiam pegar fruta no pé da árvore e faziam guerra de taperebá, que até estragava na rua, tinha piquiá pra caramba e vocês davam até pra porco, fala a verdade... A tua vó tenta melhorar o nosso passado, mas não era bem assim, eu me lembro que quando a gente queria comer um pedaço de carne, tipo fígado, ela dizia: te contenta com essa caça moída aí. E sabe o que era? Era paca, que de...

Ficção de todo dia III

Quanto é que dá três? Num sabe fazer conta? Se soubesse não tava te perguntando... bora, quanto é? Passa logo menino, ei Lorraaaane, quantas vezes te falei que não é pra botar a mão aí, merda! Eu não botei a mão em lugar nenhum. Eu sou cega agora, é? Tô velha, mas não tô idiota, tira a mão daí, não vou repetir. Jucéliooooo, dou-te uma tapa, vem pra cá. Dá oito e dez! Quê? Tô com cara de quem tá cagando dinheiro, né? Bora, minha senhora, eu quero passar, não tá vendo a fila que tá se formando aqui atrás? Já falei que não sou cega, aliás, falei que não era idiota... tanto faz, não sou nenhum das duas coisas e o que é que o senhor tem que se meter na minha vida? Já tenho que discutir com esse um que quer me roubar e aí vem o outro me importunar. Lorraaaaaaane, pequena, volta! Sim, minha senhora, não vai passar? Tá todo mundo lhe esperando decidir se vai ou se fica. Quê? Se fica! O senhor não tem vergonha de chamar palavrão na frente dessas crianças? Esse mundo tá perdido mesmo, m...

Ficção de todo dia II

Só ouvi aquela rajada. Eu achava que era pneu de bicicleta, sabe quando estoura? Pois é. Mas como isso? Várias bicicletas ao mesmo tempo? Ah, eu pensei que era. Na verdade eu sabia o que era, mas tava rezando pra que não fosse, sabe como é, a gente fica com medo, vai que é com um parente nosso.  E o que tu fizeste? Quando eu ouvi? Sim. Eu corri pra porta de casa na mesma hora pra ver o que era. E tu já não sabías? Sim, eu precisava ter certeza. Precisava, tava curiosa, queria saber quem tinha levado sal! Como assim? Bicho morto num é salgado? Pelo amor de Deus... Ah, é assim que a malandragem fala. Desde quando tu és malandra?  Deixa eu contar: na hora que eu saí na porta não tinha ninguém na rua, olhei pra um lado, aí quando olhei pro passaram dois caras numa moto e me olharam na cara, chega eu engoli seco, voltei correndo pra dentro de casa e esperei eles irem embora. Nunca vi na vida, fiquei tremendo que nem consegui me mexer, esses caras são todos iguais, mesma ca...

Ficção de todo dia I

Ele tentou subir a escada, deu dois passos pra frente e um pra trás. Foi o suficiente. Um dente, um braço e uma cabeça quebrada. A garapa quente escorreu pela rua.  Que barulho foi esse? Vai lá olhar! Eu não, vai que é tiro, deusolivre. Tô curiosa, vai logo. Vai tu, eu hein. A garapa escureceu. Escureceu. Corre menino, chama o Samu. Cutuca ele. Eu não, vai que a Polícia pensa que fui eu. E tu não tava do meu lado de noite? Até onde eu lembro sim... Conta essa história direito. Eu tive um sonho sabe, não sei se acordei, sei que ouvi uns gritos, era uma mulher que tava dizendo que ia embora e não queria mais saber de nada, tava cansada daquela vida, todo dia era aquela mesma história: ela ia trabalhar e quando voltava ainda tinha que aguentar bafo de cachaça de velho vagabundo, que qualquer dia desses ele ia se dar muito mal por causa disso, todo dia orava a Deus pra dar um fim nesse sofrimento. E gritava: misericórdia, sangue de Cristo tem poder que tu vai ter uma lição um ...