Pular para o conteúdo principal

Ficção de todo dia II

Só ouvi aquela rajada. Eu achava que era pneu de bicicleta, sabe quando estoura? Pois é. Mas como isso? Várias bicicletas ao mesmo tempo? Ah, eu pensei que era. Na verdade eu sabia o que era, mas tava rezando pra que não fosse, sabe como é, a gente fica com medo, vai que é com um parente nosso. 

E o que tu fizeste? Quando eu ouvi? Sim. Eu corri pra porta de casa na mesma hora pra ver o que era. E tu já não sabías? Sim, eu precisava ter certeza. Precisava, tava curiosa, queria saber quem tinha levado sal! Como assim? Bicho morto num é salgado? Pelo amor de Deus... Ah, é assim que a malandragem fala. Desde quando tu és malandra? 

Deixa eu contar: na hora que eu saí na porta não tinha ninguém na rua, olhei pra um lado, aí quando olhei pro passaram dois caras numa moto e me olharam na cara, chega eu engoli seco, voltei correndo pra dentro de casa e esperei eles irem embora. Nunca vi na vida, fiquei tremendo que nem consegui me mexer, esses caras são todos iguais, mesma cara, mesma roupa , mesmo jeito, eu nem vi direito, parece que a névoa do medo passou no meu olho. Dei um tempo, quando vi o vuco-vuco na rua, saí pra ver se eu conhecia, pior que sim, mas falaram que era bandido também.

Como é que tu sabes dessas coisas? Todo mundo sabe quem é bandido e quem não é. Eu não sei. Mas deveria, pelo menos eles te conhecendo e tu sacando eles, salvam tua cara. E bandido salva a cara de alguém? Salva só de quem eles gostam, se não salva pelo menos te dá a real. 

O que é real nisso tudo? Real é que ninguém tá a salvo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Poetas Marginais e Geração Mimeógrafo

Estamos mais do que acostumados a ter acesso a livros e e-books que muitas vezes nem sequer passam pelo mercado editorial, mídia, crítica literária, universidade   ̶  isto é, espaços responsáveis pelo sucesso de público e sobre a inclusão da obra no cânone literário   ̶ ,   mas que se tornam fenômenos de leitura   e podem influenciar gerações futuras. Não, não estou falando de nenhum sucesso da web em blogs, sites, tumblr, fanzine virtual ou algo do gênero.  Estou falando dos poetas marginais e da Geração Mimeógrafo. Para você que acha que esses poetas vieram diretamente da cadeia, ou mimeógrafo é um bicho, uma doença ou um tipo de droga, explico.  Esses poetas começaram a produzir seus escritos a partir da década de 70 e se estenderam até 80 – alguns teóricos consideram apenas a década de 70, porém pela produção literária que até flertou com o movimento punk outros também consideram a segunda década –, ou seja, compreendidos nos ano...

Faces

onde nos encontramos na arte é nas dores do mundo devo saber tirar de mim as minhas dores as dores dos outros mas como tirar do espírito um dos cernes da poesia? não sei como fazer mas escuto isso o tempo inteiro Sensibilidade é o que nos enfraquece tu, virando lágrima eu, rochedo Carola e Lylian Cabral

Ficção de todo o dia VI

Deixa eu te contar essa. Uma vez eu pedi um Glória a Deus lá na reunião. Todo mundo calado. Eu pedi mais uma vez: eu quero ouvir bem alto, agora é pra falar com toda a fé que tem no peito, bora lá, Glória a Deus. Todo mundo calado.  Aí eu comecei a ficar puto.  Mas o senhor meu Deus sabe das coisas, mandou um mensageiro divino assim do meu lado e professei uma parábola que nem eu sabia.  Vocês conhecem Malaquias? Que era filho de Zacarias, irmão das três Marias e do Golias, filho de uma das tias, não sei qual, mas que era parente de terceiro grau de Jesus?  Fico todo arrepiadao só de falar. Pois bem, ele vinha andando pelas oliveiras sozinho, naquele caminho por onde passou Judas, vocês sabem a história, num silêncio quando de repente ouviu: por onde anda teus pensamentos Malaquias, filho de Zacarias, irmão das três Marias e do Golias, filho de uma das tias, não sei qual, mas que é parente de terceiro grau de Jesus, não sabes que sempre deves andar em oração...