Deixa eu te contar essa. Uma vez eu pedi um Glória a Deus lá reunião. Todo mundo calado. Eu pedi mais uma vez: eu quero ouvir bem alto, agor...

Ficção de todo o dia VI

Deixa eu te contar essa. Uma vez eu pedi um Glória a Deus lá reunião. Todo mundo calado. Eu pedi mais uma vez: eu quero ouvir bem alto, agora é pra falar com toda a fé que tem no peito, bora lá, Glória a Deus. Todo mundo calado. Aí eu comecei a ficar puto. 

Mas o senhor meu Deus sabe das coisas, mandou um mensageiro divino assim do meu lado e professei uma parábola que nem eu sabia. 

Vocês conhecem Malaquias? Que era filho de Zacarias, irmão das três Marias e do Golias, filho de uma das tias, não sei qual, mas que era parente de terceiro grau de Jesus? Fico todo arrepiadao só de falar. Pois bem, ele vinha andando pelas oliveiras sozinho, naquele caminho por onde passou Judas, vocês sabem a história, num silêncio quando de repente ouviu: por onde anda teus pensamentos Malaquias, filho de Zacarias, irmão das três Marias e do Golias, filho de uma das tias, não sei qual, mas que é parente de terceiro grau de Jesus, não sabes que sempre deves andar em oração e glorificando a Deus? Malaquias, Malaquias, estou falando contigo, sou o espírito primeiro, não estás me ouvindo?

Aí um irmão que tava lá no fundo do salão ouvindo aquela parábola disse sem a menor cerimônia: pastor, a gente sabe que tem que glorificar, só estamos esperando o terminar o Re x Pa... tenha santa paciência.

Nunca mexa com quem tá quieto em dia de Re x Pa, professou novamente aos meus ouvidos, o mensageiro divino. 

Mas Ó Pai, eu que só queria um Glória a Deus... e era pra ti.

Eu já entendi, não sou surdo porra, fica orando em silêncio que eu tô tentando ouvir o jogo.


Ela me disse uma vez que preferia morrer do que ter que deixar aquela casa pra todos os filhos, tu acreditas? Credo mana, quem te disse iss...

Ficção de todo dia V

Ela me disse uma vez que preferia morrer do que ter que deixar aquela casa pra todos os filhos, tu acreditas? Credo mana, quem te disse isso? Eu ouvi da boca dela, não mandou recado, te juro. Meu queixo quase caiu quando falou isso. Mas ela vai ter que morrer pra casa ir pros filhos, né? Sim, mas tu entendeste o que ela quis dizer, né? Entendi, quer levar a casa pro túmulo, isso porque foi ela que pariu, valha-me Deus.

Quando os meninos eram crianças ela dava de cipó neles, os bichinhos pulavam o muro de casa fugindo dela, uma vez deu com uma colher quente na cabeça de um zinho lá que até hoje tem as marcas daquilo... Eu hein, tem gente que não nasceu pra ter filho... É, mas a vida dela não foi fácil também. Contou pra mim que os meninos só faltavam deixar ela doida, tinha um que até botar fogo na cama dela botou. Sangue de Cristo. É, diz que esse que fez isso era igualzinho a ela, os outros meninos tinham até medo dele, pulavam o muro também pra fugir desse menino...

Será que esse espírito ruim passa de mãe pra filho? Passa não, né mana, a criança aprende olhando o exemplo. E o filho que colocou ela no asilo era qual? Era esse mesmo, o que ateou fogo na cama. Mentira... É, parece que levou ela pra lá e inventou uma história de que tinham entrado na casa pra assaltar e que ela ia precisar passar um tempo na casa de repouso. Até mudam o nome pra ficar bonito, né? Como é o nome disso, metonímica, né? Não, parece que é metáfora... Mas isso não é quando a gente fala num sentido que não é o valendo? E não foi o que ele fez? Ah mana, eu passei arrastada nessa matéria, o que eu sei é que eu fui visitar a velha lá e soube pelas enfermeiras que o único filho que vai olhar a mulher é aquele da colher quente na cabeça... mas que ela gosta mesmo é do ruim.

Tem gente que nasceu pra ser gente, né mana?

Quando eu era pobre tinha que dividir um pão pra dez! Lá vem a senhora contar mentira pra cá... Tu não acreditas? Aaaaaah, tu não sabes o q...

Ficção de todo dia IV

Quando eu era pobre tinha que dividir um pão pra dez! Lá vem a senhora contar mentira pra cá... Tu não acreditas? Aaaaaah, tu não sabes o que é um couro. Como assim? Nunca ouviu essa expressão? Eu não. Um couro é quando a gente diz que a nossa pele fica curtida - que nem de boi - de tanto arder, a fome arde nas tripas, sabia? Arde nas tripas, já dizia a minha mãe. Toda vez que eu dizia que não queria aquele pão velho ela me dava um cascudo e dizia essa frase, parece que sinto a aquele cascudo,  daí ela pegava o pão e a gente dividia.

Mas a vovó disse que lá no interior do Marajó tinha fartura, vocês podiam pegar fruta no pé da árvore e faziam guerra de taperebá, que até estragava na rua, tinha piquiá pra caramba e vocês davam até pra porco, fala a verdade... A tua vó tenta melhorar o nosso passado, mas não era bem assim, eu me lembro que quando a gente queria comer um pedaço de carne, tipo fígado, ela dizia: te contenta com essa caça moída aí. E sabe o que era? Era paca, que depois de morta eles moíam e vendiam como picadinho, aquele que tu não gostas de comer, fica cheio de frescura. Diz que não aguenta mais comer frango... tu não sabes de nada. Reclama de barriga cheia, eu é que sei.

Eu nem reclamo... só disse que não quero mais comer frango de manhã, de tarde e de noite, tô quase pra botar um ovo... É o que tem? A gente tem é que dar graças a Deus por ter o que comer, porque no tempo que eu era pobre... Ué, mas algum dia a gente já deixou de ser?

Quanto é que dá três? Num sabe fazer conta? Se soubesse não tava te perguntando... bora, quanto é? Passa logo menino, ei Lorraaaane, quanta...

Ficção de todo dia III

Quanto é que dá três? Num sabe fazer conta? Se soubesse não tava te perguntando... bora, quanto é? Passa logo menino, ei Lorraaaane, quantas vezes te falei que não é pra botar a mão aí, merda! Eu não botei a mão em lugar nenhum. Eu sou cega agora, é? Tô velha, mas não tô idiota, tira a mão daí, não vou repetir. Jucéliooooo, dou-te uma tapa, vem pra cá.

Dá oito e dez! Quê? Tô com cara de quem tá cagando dinheiro, né? Bora, minha senhora, eu quero passar, não tá vendo a fila que tá se formando aqui atrás? Já falei que não sou cega, aliás, falei que não era idiota... tanto faz, não sou nenhum das duas coisas e o que é que o senhor tem que se meter na minha vida? Já tenho que discutir com esse um que quer me roubar e aí vem o outro me importunar. Lorraaaaaaane, pequena, volta!

Sim, minha senhora, não vai passar? Tá todo mundo lhe esperando decidir se vai ou se fica. Quê? Se fica! O senhor não tem vergonha de chamar palavrão na frente dessas crianças? Esse mundo tá perdido mesmo, misericórdia. Mas eu não disse nada demais, a senhora que tá... Tá o quê? Lorraaaaaaane, vai tirar o teu irmão da porta, qualquer dia desses eu vou enlouquecer com esses dois, não tô pra isso não. Jucélio me ajuda aqui a morrer, merda!

Dá oito e dez. Toma logo isso daqui, eu hein. Esse pessoal anda muito estressado crianças. Lorraaaane, traz o Jucélio pra cá antes que eu quebre a cabeça dos dois, bora sentar lá pra trás que esse motorista não deve ter mãe pra correr desse jeito, credo...gente estressada... 

Só ouvi aquela rajada. Eu achava que era pneu de bicicleta, sabe quando estoura? Pois é. Mas como isso? Várias bicicletas ao mesmo tempo? A...

Ficção de todo dia II

Só ouvi aquela rajada. Eu achava que era pneu de bicicleta, sabe quando estoura? Pois é. Mas como isso? Várias bicicletas ao mesmo tempo? Ah, eu pensei que era. Na verdade eu sabia o que era, mas tava rezando pra que não fosse, sabe como é, a gente fica com medo, vai que é com um parente nosso. 

E o que tu fizeste? Quando eu ouvi? Sim. Eu corri pra porta de casa na mesma hora pra ver o que era. E tu já não sabías? Sim, eu precisava ter certeza. Precisava, tava curiosa, queria saber quem tinha levado sal! Como assim? Bicho morto num é salgado? Pelo amor de Deus... Ah, é assim que a malandragem fala. Desde quando tu és malandra? 

Deixa eu contar: na hora que eu saí na porta não tinha ninguém na rua, olhei pra um lado, aí quando olhei pro passaram dois caras numa moto e me olharam na cara, chega eu engoli seco, voltei correndo pra dentro de casa e esperei eles irem embora. Nunca vi na vida, fiquei tremendo que nem consegui me mexer, esses caras são todos iguais, mesma cara, mesma roupa , mesmo jeito, eu nem vi direito, parece que a névoa do medo passou no meu olho. Dei um tempo, quando vi o vuco-vuco na rua, saí pra ver se eu conhecia, pior que sim, mas falaram que era bandido também.

Como é que tu sabes dessas coisas? Todo mundo sabe quem é bandido e quem não é. Eu não sei. Mas deveria, pelo menos eles te conhecendo e tu sacando eles, salvam tua cara. E bandido salva a cara de alguém? Salva só de quem eles gostam, se não salva pelo menos te dá a real. 

O que é real nisso tudo? Real é que ninguém tá a salvo.
Carol Magno. Tecnologia do Blogger.

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