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Como seria

Sobre o amor impossível de Clarice Lispector e Lúcio Cardoso Quando de ti me esqueço vejo-o e não meço o apreço e deste desejo, a mim caro, mereço cada adaga que virá no próximo começo cada passo não pisado cada verso não proferido cada toque não cultivado desajuste do não começo E não mereces o que de ti cortejo pois teu coração, não o conheço não com a sorte de um louco mas com o azar de um fugitivo quando o quero, nada digo ouço apenas, em silêncio tua voz em meu ouvido e imagino desde o início como seria o nosso beijo  Carola

Mais um pouco de poesia marginal

Poeta e realidade (Didática) A poesia é a lógica mais simples. Isso que surpreende aos que esperam ser um gato drama maior que o meu sapato aos que esperam ser o meu sapato drama tanto mais duro que andar descalço em modo calmo  (Maior surpresa terão passado aos que julgam que me engano: ah não sabem quanto quero o sapato não sabem quanto trago de humano nesse desespero escasso Não sabem mesmo o que falo em teorema tão claro. Como se cansariam ao me buscar os passos pois tenho os pés soltos e ando aos saltos e, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço a lógica da verdade pelos pontos falsos.) VIII Sou político E nem sei o que possa dizer com isso Mas é da época ser político E há vários políticos E cada um tem a sua verdade política E a sua maneira política de ser político E cada político tem o seu melhor mundo a oferecer Sou político e também penso que talvez tenha um mundo Mas nem por isso, talvez somente fantasie inútil E acredite poder alte...
Por Adriane Henderson* Café de Nuit, Arles , P. Gauguin, 1888. Qualquer dia desses vai ser preciso forçar a memória para lembrar o teu nome. Provavelmente, serrarei os olhos e deixarei que as rugas em minha testa traduzam o esforço por uma imagem qualquer que remonte tua fisionomia. Enquanto calço um chinelo velho e a televisão espalha seu ruído pela casa para que eu não me veja tão sozinha, vou lembrar o ruído do teu sorriso e do tempo que ele passou me perseguindo pelas esquinas, na expectativa de que um dia irias atravessar a rua ao meu encontro. Numa tarde quente de dezembro vou me distrair enquanto espero o sinal fechar e vou lembrar da tua voz, sempre um tom abaixo do teu timbre, me sussurrando aos ouvidos: “menina, menina...”. Talvez um dia conte sobre aquela noite, numa mesa de bar, para os amigos. Então, vou saber que é uma lembrança desbotada pelo cheiro de vinho e suor que escorria da nossa dança. Vou retocar com tinta fresca os detalhes...

Primeiro

pelas costas descobres minha pele meu peito aperta lentamente deixo a roda girar pelo tempo dentro do zelo em que te acolho estou minha vida se ergue ao vento, e à voz não estou mais no que fui ontem dormes, e teu corpo conta histórias que sonho vim até ti e voltas comigo: te dou então a lâmina clara, o corte preciso. nada do que era tinha de vasto muito mais casto analítico por toda a loucura que observas, ergo um ramalhete hoje, muito mais largo do que em riste as palavras nos acenarão de dentro do esquecimento vislumbro o que há de novo, o que vem a nós emergir.                                                                                                         ...

Dia cinza em meio ao céu azul

"Quando conhecer a sua alma, pintarei seus olhos."  Modigliani Retrato de Jeanne Hébuterne em um grande chapéu(1918) de Amadeo Modigliani Nada do que vejo tem a cor de sua essência, é como se um balde de tinta cinza estivesse cobrindo todas as rosas e borboletas coloridas de vida. A verdade é que a névoa quase sem cor está muito mais nos meus olhos, ando tateando o que não consigo enxergar de belo. Uns diriam ser isso um pessimismo qualquer ou até doença. Digo apenas ser uma onda vindo e tomando forma de monstro. Marola no começo, avolumando-se, as reverberações das conchas anunciam, já vislumbro um redemoinho que me submerge para o fundo do oceano. E me profundo e me águo, peixo-me, arrecifo-me, plâncton-me, bento-me, negrume-mar. Nada do que pertenço me aparece luz, nada claro, nada nado. De bubuia fico na imensidão do tempo. Eis o que é essa água toda, o tempo. Nele estou mareada. Fluídica, muito mais inundada. Meu corpo é só água. Setenta...

Algoz

Ao amigo Rodrigo Mebs és algoz porque não estás aqui entre nós agora em outras trilhas lutas como fosse fugindo de um fogo atroz és algoz por essa distância que se faz de morta e fria feito peixe na fisgada desastrada das patas dum albatroz és algoz porque nos cobrias das noites frias com teu manto de poesia vinho-noite-neon-neblina nosso Albornoz hoje apenas soas atroz mesmo assim de viés dentro aqui de nós teu heavy metal-poema feroz ninguém cala esse silêncio porta-voz Renato Gusmão* *Gusmão é poeta, mantém o Programa Cor da Pátria desde 1993, presidente do Instituto Cultural Extremo Norte e coordenador da Proyecto Cultural Sur Brasil.

Fé que enxerga

Sou o rei do meu tempo                                     Sou o bobo da corte o mendigo,  o faminto,  o palhaço,  o indigente o rico, o burro,  o pobre, o forte,  o inteligente Sou o curandeiro                                 eu curo a dor do futuro                                                                 e mais que isso tudo                                Sou mais do que a bunda no assento Eu sou o acento agudo,                             ...