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Primeiro

pelas costas descobres minha pele meu peito aperta lentamente deixo a roda girar pelo tempo dentro do zelo em que te acolho estou minha vida se ergue ao vento, e à voz não estou mais no que fui ontem dormes, e teu corpo conta histórias que sonho vim até ti e voltas comigo: te dou então a lâmina clara, o corte preciso. nada do que era tinha de vasto muito mais casto analítico por toda a loucura que observas, ergo um ramalhete hoje, muito mais largo do que em riste as palavras nos acenarão de dentro do esquecimento vislumbro o que há de novo, o que vem a nós emergir.                                                                                                         ...

Dia cinza em meio ao céu azul

"Quando conhecer a sua alma, pintarei seus olhos."  Modigliani Retrato de Jeanne Hébuterne em um grande chapéu(1918) de Amadeo Modigliani Nada do que vejo tem a cor de sua essência, é como se um balde de tinta cinza estivesse cobrindo todas as rosas e borboletas coloridas de vida. A verdade é que a névoa quase sem cor está muito mais nos meus olhos, ando tateando o que não consigo enxergar de belo. Uns diriam ser isso um pessimismo qualquer ou até doença. Digo apenas ser uma onda vindo e tomando forma de monstro. Marola no começo, avolumando-se, as reverberações das conchas anunciam, já vislumbro um redemoinho que me submerge para o fundo do oceano. E me profundo e me águo, peixo-me, arrecifo-me, plâncton-me, bento-me, negrume-mar. Nada do que pertenço me aparece luz, nada claro, nada nado. De bubuia fico na imensidão do tempo. Eis o que é essa água toda, o tempo. Nele estou mareada. Fluídica, muito mais inundada. Meu corpo é só água. Setenta...

Algoz

Ao amigo Rodrigo Mebs és algoz porque não estás aqui entre nós agora em outras trilhas lutas como fosse fugindo de um fogo atroz és algoz por essa distância que se faz de morta e fria feito peixe na fisgada desastrada das patas dum albatroz és algoz porque nos cobrias das noites frias com teu manto de poesia vinho-noite-neon-neblina nosso Albornoz hoje apenas soas atroz mesmo assim de viés dentro aqui de nós teu heavy metal-poema feroz ninguém cala esse silêncio porta-voz Renato Gusmão* *Gusmão é poeta, mantém o Programa Cor da Pátria desde 1993, presidente do Instituto Cultural Extremo Norte e coordenador da Proyecto Cultural Sur Brasil.

Fé que enxerga

Sou o rei do meu tempo                                     Sou o bobo da corte o mendigo,  o faminto,  o palhaço,  o indigente o rico, o burro,  o pobre, o forte,  o inteligente Sou o curandeiro                                 eu curo a dor do futuro                                                                 e mais que isso tudo                                Sou mais do que a bunda no assento Eu sou o acento agudo,                             ...

Eu podia estar roubando, eu podia estar matando

 O poeta pobre(1839) de Carl Spitzweg Ela pode ser encontrada em qualquer lugar das cidades ou das florestas. Pichada pelos muros, perdida em qualquer festa. E isto não é blasfêmia, é barata, eu juro, o preço são quantias módicas de um sorriso, um aperto de mão, um afeto, bons causos, gargalhadas, carinho de criança, beijos dos apaixonados, certeza dos amantes, corrida de belas pernas, olhares insinuantes, adolescentes desconcertados, vida tragada pelo homem, homem tragado pela vida. E tende à ralé, na essência, não traz o rebuscamento das coisas, as ligações bem-ajambradas conseguidas pelos conectivos, conceitos fechados ou abertos elaborados por filósofos importantes e/ou cheios de si.  Nela os sentimentos humanos são plebeus, nem sempre doces, nem respeitam aos padrões do cânone. Tem muito mais razão de ser nos uivos dos bêbados cantadores pelas amadas que não são suas, mães que esperam filhos que nunca voltam, amantes que não ficaram juntos e filhos que ...

Oração

Pintura de Giuseppe Dangelico Riscaste em meu peito com o sangue dos teus olhos a mais feroz mágoa que teu ódio tem direito Vieste ao meu leito como homem que toma o que é seu e está feito. Dois corpos em soma. Eu, teu copo de vinho Sangue vivo, teu pão Ceia santa, um ninho Ódio nosso rolando ao chão Pele nossa sem desalinho Carnes sôfregas em oração. Carola

Corte transversal do poema

Ismael Nery - Retrato de Murilo Mendes, 1922 A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços. Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça, fica com um braço de fora. Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos. Um anjo cinzento bate as asas em torno da lâmpada. Meu pensamento desloca uma perna, o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados. Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia, um olho andando, com duas pernas. O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem. A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios. Só tenho o outro lado da energia, me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou. Murilo Mendes