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Corra o risco

quando sussurro verdades não é sem alarde, sem agonia é por saber que ninguém as dirá verdade é faca cega, chibata trabalho sujo sem remédio pois  palavras são laminadas cirúrgicas ao cair da boca engasgo certo pra se debater dizer o que não se quer ver é padecer na solidão Carol Magno

CHUVA BRANDA

É tanta coisa que não cabe no peito gente indo, chegando de todo jeito passo aperto, choro, sinto a mudança vindo em tempo na fadiga que não minto já cessa o que tem defeito o vento insone antes da cura  perde força na chuva branda onde caminho na vertigem dessa andança seguro a contradança da roda de quem vem comigo Carola

Mensagem

A fresta é pequena e o coração é grande não bate na porta antes sente o cheiro, o orvalho da nova primavera olha aproveita o instante respira e espera respeita o tempo de florescer Carol Magno

Invernal

Por Renato Torres* Belém embala em gotejos os arquejos neoclássicos, as suas volutas mouras esculpidas em corroídas cantoneiras de outras culturas a quatrocentona apura o gosto por juras de amor nos coretos, e os gravetos das mangueiras escuras regem a sonata das horas é agora, na chuva, que evolve a vulva imensa da cidade morena, tamanha a sua estatura, pequena a sua vergonha a gônada ganha a desmesura da gentalha suburbana – sua zona erógena – e goza a abundante enchente de seus baixios é assim que o sal e o betume dos rios encontra descanso: no charco soçobrante do canal na cal das manhãs sem sol *Renato Torres é poeta, músico, ator, parceiro de MUITOS artistas paraenses, em várias áreas. Publicará seu primeiro livro em maio deste ano, o Perifeérico, pela editora Verve. Escreve regularmente para o seu blog  A Página Branca  e tem um Sondclound , onde coloca suas músicas lindas.

Outros somos

o dia de estar no outro é hoje o outro que também sou o outro sem senhor de punhal na língua e carinho retardado do ato perdido, gole intragável noutro caminho, outro em ti também outro és em mim mas não te reconheces outros somos e tão próximos no mesmo caminho, descontínuo nós, dias cinzas na estrada de terra, viajantes áridos escondendo a certeza do que não se diz caminhamos alheios na estrada que não é nossa Carol Magno

O Natal vem vindo, vem vindo o Natal

Para haver mudança emotiva, social, cultural, de qualquer situação, é preciso apenas de uma gota que transborde o copo, ou o coração. Depois disso, sai da frente. Explosão para um mundo novo, uma vida nova. Um você novo. Um nós novo. Tem mais amigo(a), a vida te arrasta, o mundo te arrasta, a morte te arrasta, qualquer ser vivo te arrasta, porque você não está só, não nasceu de chocadeira e para vir ao mundo, existiu uma mulher que te pariu, alguém que te amamentou, seja pelo peito, seja segurando a tua mamadeira. E por causa de um mísero gesto que simplesmente poderia não existir, por preguiça de contrariar a Lei da Gravidade e segurar um corpo em desenvolvimento, quase amorfo que já foste, você poderia não ter sido alimentado e poderia ter virado apenas um projeto de ser humano. Você precisou de outra pessoa e ela estava ali. Nunca se está realmente só. Em qualquer gesto é preciso mais do que instinto, condicionamento biológico ou matérias elementares agindo em conformidade...

Bernardo Sayão

No meio do meu caminho tinha um rio barrento está prestes a virar concreto sem cor, sem vida, sem água um triste rio de cimento nele há vestígios de gente moradores da vala comum cruel do esquecimento uma boneca sem olho, restos de casa demolida uma garrafa boiando sem esperança crianças ao redor do que já foi potável besta suspiro de vida urubus sobrevoam alegres a feira um misto de podridão e comida frango abatido, carcaça de boi, escama de peixe pelo chão caída caminho mais um pedaço vejo o mercadinho Fé em Deus mas não vejo nenhum regaço será mesmo que olha pelos seus? um rio-mar se abre diante de mim enquanto pescadores encantam suas redes para tear os peixes sorte navalhada no banzeiro, ferida talhada nos corpos destes vou em direção ao centro a imagem muda rapidamente ruas limpas, arborizadas nem lembra a dor daquela gente que engole sapo, e vive na merda mas comemora, de só agora ter o básico saneamento ...