Pular para o conteúdo principal

Postagens

Invernal

Por Renato Torres* Belém embala em gotejos os arquejos neoclássicos, as suas volutas mouras esculpidas em corroídas cantoneiras de outras culturas a quatrocentona apura o gosto por juras de amor nos coretos, e os gravetos das mangueiras escuras regem a sonata das horas é agora, na chuva, que evolve a vulva imensa da cidade morena, tamanha a sua estatura, pequena a sua vergonha a gônada ganha a desmesura da gentalha suburbana – sua zona erógena – e goza a abundante enchente de seus baixios é assim que o sal e o betume dos rios encontra descanso: no charco soçobrante do canal na cal das manhãs sem sol *Renato Torres é poeta, músico, ator, parceiro de MUITOS artistas paraenses, em várias áreas. Publicará seu primeiro livro em maio deste ano, o Perifeérico, pela editora Verve. Escreve regularmente para o seu blog  A Página Branca  e tem um Sondclound , onde coloca suas músicas lindas.

Outros somos

o dia de estar no outro é hoje o outro que também sou o outro sem senhor de punhal na língua e carinho retardado do ato perdido, gole intragável noutro caminho, outro em ti também outro és em mim mas não te reconheces outros somos e tão próximos no mesmo caminho, descontínuo nós, dias cinzas na estrada de terra, viajantes áridos escondendo a certeza do que não se diz caminhamos alheios na estrada que não é nossa Carol Magno

O Natal vem vindo, vem vindo o Natal

Para haver mudança emotiva, social, cultural, de qualquer situação, é preciso apenas de uma gota que transborde o copo, ou o coração. Depois disso, sai da frente. Explosão para um mundo novo, uma vida nova. Um você novo. Um nós novo. Tem mais amigo(a), a vida te arrasta, o mundo te arrasta, a morte te arrasta, qualquer ser vivo te arrasta, porque você não está só, não nasceu de chocadeira e para vir ao mundo, existiu uma mulher que te pariu, alguém que te amamentou, seja pelo peito, seja segurando a tua mamadeira. E por causa de um mísero gesto que simplesmente poderia não existir, por preguiça de contrariar a Lei da Gravidade e segurar um corpo em desenvolvimento, quase amorfo que já foste, você poderia não ter sido alimentado e poderia ter virado apenas um projeto de ser humano. Você precisou de outra pessoa e ela estava ali. Nunca se está realmente só. Em qualquer gesto é preciso mais do que instinto, condicionamento biológico ou matérias elementares agindo em conformidade...

Bernardo Sayão

No meio do meu caminho tinha um rio barrento está prestes a virar concreto sem cor, sem vida, sem água um triste rio de cimento nele há vestígios de gente moradores da vala comum cruel do esquecimento uma boneca sem olho, restos de casa demolida uma garrafa boiando sem esperança crianças ao redor do que já foi potável besta suspiro de vida urubus sobrevoam alegres a feira um misto de podridão e comida frango abatido, carcaça de boi, escama de peixe pelo chão caída caminho mais um pedaço vejo o mercadinho Fé em Deus mas não vejo nenhum regaço será mesmo que olha pelos seus? um rio-mar se abre diante de mim enquanto pescadores encantam suas redes para tear os peixes sorte navalhada no banzeiro, ferida talhada nos corpos destes vou em direção ao centro a imagem muda rapidamente ruas limpas, arborizadas nem lembra a dor daquela gente que engole sapo, e vive na merda mas comemora, de só agora ter o básico saneamento ...

Bem-vindo ao estranho mundo

*Por Vicente Franz Cecim Em algum lugar do estranho mundo mãos se tocam em silêncio branco Ah o encanto da carne quando esquecida é a existência do deus que causa a dor Uma ave vai pousando em seu ninho, traz nos olhos os espantos do dia que se acaba, se acaba Mas a tarde nos serena, com a promessa de que logo vai anoitecer para novamente nos tornarmos sombras, nos tornarmos sombras, nos tornarmos sombras Devolvidos aos ninhos escuros, escuros, escuros Ah como nos assusta caminhar sob um sol  A este lado da esfera ainda não veio o tempo do repouso  A terra geme, a fatigada, fatigada Os homens nos caminhos do crepúsculo da raça perderam seus olhos nos cílios pesados de bronzes antigos  As estátuas com nódoas de vergonhas, a vergonha, a vergonha                            ...

Ferida d'água

Avoluma-se a erupção e transbordo sem controle litros de dor, ameaçadores mágoas como algas dançam na corrente marinha, profunda lembranças-corais são areia acumulada de difícil erosão mas o oceano deve ser renovado pois quando pulsa desse jeito é sinal de que está vivo pra enfim sair a lágrima de lava de um oceano de hipocrisia ferida d'água que se cava mas liberta pra poesia

CARMO

para Olivar calmo - o largo chora para aliviar o clamor da tarde um sino dobra o ocaso se infiltra - ad infinitum o anfiteatro um homem cego mira o infinito filtra a luz do mundo o sol finda pelo verso suspensa no tempo para sempre arde a voz do meu amigo [ DAND M. ] (extraído do livro "Possuído ou a diluição de Lorena")