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Oração

Pintura de Giuseppe Dangelico Riscaste em meu peito com o sangue dos teus olhos a mais feroz mágoa que teu ódio tem direito Vieste ao meu leito como homem que toma o que é seu e está feito. Dois corpos em soma. Eu, teu copo de vinho Sangue vivo, teu pão Ceia santa, um ninho Ódio nosso rolando ao chão Pele nossa sem desalinho Carnes sôfregas em oração. Carola

Corte transversal do poema

Ismael Nery - Retrato de Murilo Mendes, 1922 A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços. Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça, fica com um braço de fora. Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos. Um anjo cinzento bate as asas em torno da lâmpada. Meu pensamento desloca uma perna, o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados. Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia, um olho andando, com duas pernas. O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem. A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios. Só tenho o outro lado da energia, me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou. Murilo Mendes

Pra lembrar de viver

A sexta-feira é placebo Dado a nós pra não sabermos que a vida é usura Diário de muitos mitos Caminhada cheia de ritos Trilha diária de inúmeros erros Mas sabemos do eterno sofrer que o homem traz no peito Como ferro marcando a pele Tudo inverso, gasto, oposto do que se espera, falsas palavras violentas quimeras, imperfeito mundo, sem   ordem, hipérbato Grandes reviravoltas no viver Independente do placebo, Horário, forma, fama, trabalho Trago no fundo de meu dia No âmago do peito: um raio que me eletrifica e me acorda para que’u não roa essa corda como um rato adestrado, na maçante e bruta mais-valia de quem não vive,ama, grita, chora                             [e só tem medo E não se entrega ao enredo do fugidio, mas inefável dia a dia. Carola

Se é para arder no inferno

"Motion 4" de Francis Giacobetti  Se é pra arder no inferno, q ue seja no fogo santo do prazer Aquele insano, mas não profano  que não és capaz de conhecer Nada de delicadeza, quiça beleza ou detalhe pra esquecer venha preparado, nada terno,  venha armado, pr'o combate                             [ao anoitecer E mergulhe nessa labareda que é minha pele, luz acesa sacrilégio posto à mesa deleite eterno, também céu e inferno, sortilégio Não demore muito, meu anjo, apenas vem.  Carola  

Não sei

Liberdade é utopia? É o que se vive? É o dia a dia? É dor sem agonia? Claridade, natividade? Força bruta ou amanhã? Será júbilo, altruísmo? Redemoinho ou talismã? Carência do sim ou do não, moeda de troca, um palavrão? Será palpável, etérea, nobre, dúvida certa, interrogação? E se é utopia, vem de dia ou no anoitecer, na escuridão? É misto de prazer e depressão? É ser independente, latente, divergente da castração? Liberdade vem com a idade ou tem a ver com o coração? É algo com facilidade, intensidade, sofreguidão? Ou a vontade de se viver eternamente com   tesão? Será cadeia, sede de mundo, ceia, tatear o abismo? Ou será uma piada, celeuma, prosa, uma charada, um aforismo mais fácil de entender se eu me chamasse Raimundo? Carola

DIALÉTICA CANALHA

Para quem leu o EMBATE RETÓRICO , publicado originalmente no Quente e Úmido : uma resposta. DIALÉTICA CANALHA *Por Danilo Caetano Eu É possível que a cama supra? Você Sim, é possível. Mas os canalhas sempre dizem sim. Os canalhas sempre alimentam relações improváveis. Eu Mas, e o canalha bem intencionado? Aquele que engana duas porque não acha justo enganar apenas uma? Você Esse é o pior deles. Eu Por quê? Você Porque jamais falará a verdade a nenhuma das duas e para uma falará sempre montado em um epicurismo simplório. Eu Mas se fôssemos todos uns cínicos a rejeitar as vicissitudes da vida, tudo não seria chato demais? Não é uma Lei de Adrástea buscar a felicidade? Você Sim. Mas os canalhas sempre dizem sim. Eu Então? Você Apenas Héstia aceitaria. Eu Então, apresenta a tua palinódia. Você Nunca. Eu Então, fico pela nuca. * Danilo Caetano é publicitário. Mas é um cara inteligente e saiu da vida de agência de publicidade...

Minha Maria

Dia Internacional da Mulher para mim não é dia para confetes, ao contrário, é data para se olhar para dentro.   Não digo que não devamos falar das glórias femininas ou ficarmos felizes com homenagens e mimos que ganhamos de chefes, maridos, amigos, namorados, homens de nossas vidas. Tudo isso é muito importante e alimenta o dia de sorrisos e afagos sinceros. Não vou fazer um discurso feminista, político ou revoltado sobre nossas mazelas, condição muitas vezes desleal no mercado de trabalho; a banalização da mídia em relação à nossa figura, que parece que só deve ser respeitada nesse dia ou do fato de nós mesmas nos colocarmos na condição de carne mais barata do mercado e reclamarmos quando querem nos comprar, entre outras coisas que abomino. Há tudo isso, mas quero falar de outras camadas mais profundas. Venho de uma família de mulheres e esse signo do feminino em mim é forte demais. Isso não implica numa camada de fragilidade e sim, muito mais nas de pelejar, aguerrir, ab...