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Bernardo Sayão

No meio do meu caminho
tinha um rio barrento
está prestes a virar concreto
sem cor, sem vida, sem água
um triste rio de cimento
nele há vestígios de gente
moradores da vala comum
cruel do esquecimento

uma boneca sem olho, restos de casa demolida
uma garrafa boiando sem esperança
crianças ao redor do que já foi potável
besta suspiro de vida

urubus sobrevoam alegres a feira
um misto de podridão e comida
frango abatido, carcaça de boi,
escama de peixe pelo chão caída

caminho mais um pedaço
vejo o mercadinho Fé em Deus
mas não vejo nenhum regaço
será mesmo que olha pelos seus?

um rio-mar se abre diante de mim
enquanto pescadores encantam
suas redes para tear os peixes
sorte navalhada no banzeiro,
ferida talhada nos corpos destes

vou em direção ao centro
a imagem muda rapidamente
ruas limpas, arborizadas
nem lembra a dor daquela gente
que engole sapo, e vive na merda
mas comemora, de só agora
ter o básico saneamento


Carola







Comentários

  1. Carola,

    margens de largas imagens desfilam no teu texto. restos mortais, incestos de lixo, líquidos umbrais, canais infectos. tua verve se afia mais e mais.

    beijo,

    r

    ResponderExcluir
  2. Renato,

    Crueza e beleza são bem mais do que sufixos idênticos. A raiz explica mais do que qualquer abstração que se queira ter.

    Abração,

    C.

    ResponderExcluir

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