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Desalinho

será a solidão verdadeira morada, casa desolada pela tristeza?   será o caminho andar pelo destino, sem passo junto, em desalinho, pela margem esquecida do rio?   será que o cobertor é o frio, a brasa sem viço, o olhar do precipício pedindo pra pular?   será esse luar contínuo minguar, lua crua deslocada  onde padece o coração?

Corra o risco

quando sussurro verdades não é sem alarde, sem agonia é por saber que ninguém as dirá verdade é faca cega, chibata trabalho sujo sem remédio pois  palavras são laminadas cirúrgicas ao cair da boca engasgo certo pra se debater dizer o que não se quer ver é padecer na solidão Carol Magno

CHUVA BRANDA

É tanta coisa que não cabe no peito gente indo, chegando de todo jeito passo aperto, choro, sinto a mudança vindo em tempo na fadiga que não minto já cessa o que tem defeito o vento insone antes da cura  perde força na chuva branda onde caminho na vertigem dessa andança seguro a contradança da roda de quem vem comigo Carola

Mensagem

A fresta é pequena e o coração é grande não bate na porta antes sente o cheiro, o orvalho da nova primavera olha aproveita o instante respira e espera respeita o tempo de florescer Carol Magno

Invernal

Por Renato Torres* Belém embala em gotejos os arquejos neoclássicos, as suas volutas mouras esculpidas em corroídas cantoneiras de outras culturas a quatrocentona apura o gosto por juras de amor nos coretos, e os gravetos das mangueiras escuras regem a sonata das horas é agora, na chuva, que evolve a vulva imensa da cidade morena, tamanha a sua estatura, pequena a sua vergonha a gônada ganha a desmesura da gentalha suburbana – sua zona erógena – e goza a abundante enchente de seus baixios é assim que o sal e o betume dos rios encontra descanso: no charco soçobrante do canal na cal das manhãs sem sol *Renato Torres é poeta, músico, ator, parceiro de MUITOS artistas paraenses, em várias áreas. Publicará seu primeiro livro em maio deste ano, o Perifeérico, pela editora Verve. Escreve regularmente para o seu blog  A Página Branca  e tem um Sondclound , onde coloca suas músicas lindas.

Outros somos

o dia de estar no outro é hoje o outro que também sou o outro sem senhor de punhal na língua e carinho retardado do ato perdido, gole intragável noutro caminho, outro em ti também outro és em mim mas não te reconheces outros somos e tão próximos no mesmo caminho, descontínuo nós, dias cinzas na estrada de terra, viajantes áridos escondendo a certeza do que não se diz caminhamos alheios na estrada que não é nossa Carol Magno

O Natal vem vindo, vem vindo o Natal

Para haver mudança emotiva, social, cultural, de qualquer situação, é preciso apenas de uma gota que transborde o copo, ou o coração. Depois disso, sai da frente. Explosão para um mundo novo, uma vida nova. Um você novo. Um nós novo. Tem mais amigo(a), a vida te arrasta, o mundo te arrasta, a morte te arrasta, qualquer ser vivo te arrasta, porque você não está só, não nasceu de chocadeira e para vir ao mundo, existiu uma mulher que te pariu, alguém que te amamentou, seja pelo peito, seja segurando a tua mamadeira. E por causa de um mísero gesto que simplesmente poderia não existir, por preguiça de contrariar a Lei da Gravidade e segurar um corpo em desenvolvimento, quase amorfo que já foste, você poderia não ter sido alimentado e poderia ter virado apenas um projeto de ser humano. Você precisou de outra pessoa e ela estava ali. Nunca se está realmente só. Em qualquer gesto é preciso mais do que instinto, condicionamento biológico ou matérias elementares agindo em conformidade...