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A arte de amar (Thiago de Melo)

Não faço poema como quem chora, nem faço versos como quem morre. Que teve esse gosto foi o bardo Bandeira quando muito moço; achava que tinha  os dias contados pela tísica e até se acanhava de namorar. Faço poemas como quem faz amor. É a mesma luta suave e desvairada enquanto a rosa orvalhada se vai entreabrindo devagar. A gente nem se dá conta, até acha bom, o imenso trabalho que amor dá para fazer. Perdão, amor não se faz. Quando muito, se desfaz. Fazer amor é um dizer (a metáfora é falaz) de quem pretende vestir com roupa austera a beleza do corpo da primavera O verbo exato é foder. A palavra fica nua para todo mundo ver o corpo amante cantando a glória do seu poder. Thiago de Melo

Na espreita

espero você como quem tem fome na espreita quando vens na bandeja pele macia ou dura queimando carne e sangue quero-o vivo olhos flambando um toque de vinho teu coração como entrada prato principal, o corpo vísceras e membros maturados fumegando teus pensamentos de sobremesa são gélidos quero-o vivo brownie vigoroso em minha boca engulo-te sempre mas na espreita Carola Vívida

Perplexidades (Ferreira Gullar)

a parte mais efêmera de mim é esta consciência de que existo e todo o existir consiste nisto é estranho! e mais estranho ainda me é sabê-lo e saber que esta consciência dura menos que um fio de meu cabelo e mais estranho ainda que sabê-lo é que enquanto dura me é dado o infinito universo constelado de quatrilhões e quatrilhões de estrelas sendo que umas poucas delas posso vê-las fulgindo no presente do passado Ferreira Gullar Extraído de  http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-7/poesia/poesias . Em 20.07.12, às 14h15min.

Poética (Manuel Bandeira)

Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas. Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare. - Não quero saber do lirismo que não é libertação. Manuel Bandeira

Nasci pra poesia

nasci pra poesia notívaga etérea andante vadia na lua cheia no burburinho nos  risos em  teia dos bêbados acabados enluarados  depois da sexta-feira. Carola Vívida *Edit.: poema publicado no livro "Feminino à queima-roupa", editora Verve, em 2016.