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História de fim de ano

Lembro-me de um réveillon que entre muitos afagos, sorrisos e desejos emocionados de felicidade, um rosto me chamou a atenção. Não era triste, feliz ou ébrio. Era apático. Não quis socializar ou oferecer um sorriso para os seus amigos ou família. Apenas  pegou sua bebida e admirou os fogos, sem manifestar nenhum sentimento. Aproximei-me e perguntei: -  Neto, porque estás com essa cara? Não vais abraçar a tua esposa, teus amigos? Ele olhou para mim e disse:  - Tenho o ano inteiro para fazer isso. - Tens, claro que sim, mas agora nós estamos reunidos e tu te afastaste de todos, por quê?  Ele então me olhou meio sarcástico e disse:  - Eu acho uma besteira esse negócio de réveillon, todo mundo se abraçando só porque o ano está terminando e achando que ano que vem vai ser diferente. Não vai mudar nada. O trabalho vai ser o mesmo. A vida vai ser a mesma. E saiu. Olhei para ele em silêncio e notei suas pegadas for...

Um pouco mais de Quintana

INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA A vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta? Em meio aos toros que desabam, cantemos a canção das chamas! Cantemos a canção da vida, na própria luz consumida... Mário Quintana 

O pobre poema (Mário Quintana)

Eu escrevi um poema horrível! É claro que ele queria dizer alguma coisa... Mas o quê? Estaria engasgado? Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade de quem, sem ler os jornais, soubesse dos seqüestros dos que morrem sem culpa dos que se desviam porque todos os caminhos estão [tomados... Poema, menininho condenado, bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... Tomado, então, de um ódio insensato, esse ódio que enlouquece os homens ante a [insuportável verdade, dilacerei-o em mil pedaços. E respirei... Também! quem mandou ter ele nascido no mundo [errado? Mário Quintana

OS POEMAS (Mário Quintana)

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhados espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti... Mário Quintana

Para Mariana

Em resposta ao questionamento da minha amiga Mariana Hass (chique esse nome, não?) vou publicar um texto. O mais engraçado é que sofro do mesmo mal que ela, o da indisciplina. Sim, é um saco admitir, mas tenho pouca disciplina quando se trata de publicar meus textos.  Tenho um caderno em casa cheio deles, na verdade são três cadernos, mas só os considero como um, três é meio pedante. Pensei em publicar um texto por semana. Terminaria o ano e ainda sobraria, mas quando os li, tinha tanta depressão, mais tanta depressão que eu soltei uma gargalha e resolvi não postar todos, só os menos deprimentes ( latu e stritu ). Amei a ideia dela de fazer vídeos falando o que não se quer escrever, conversando sobre o Filme Psicose . O blog dela fica na minha lista, pode “ir lá depois daqui” (olha o clichê! rs). Ah! Mari, o texto era esse mesmo. Carola

Morte diária

Para o ser humano lembrar que está vivo busca novidades nos espelhos cotidianos veiculadores de notícias, entretenimentos e de absurdos, é de se admirar a capacidade de inovação e violência dos criadores e personagens dentro de tais espelhos.  Empregada é pega espancando neném de meses; o ministro chefe da casa civil deposto depois do cagaço político; entrevista do menino de doze anos que é preso depois do segundo assalto em menos de um mês: por que você foi preso meu filho? Por assalto, tio. Cadê sua mãe? Tá morta, foi assassinada. E teu pai? Meu pai é ladrão de banco, tá preso ele. Quem cuida de você? Sem resposta. Cada pedacinho de vida morre à medida que não acordamos diante do que nos reflete. Nos pixels das imagens, nem tão distantes e dentro de casa. A ilusão é de afastá-las com um click do controle, mas este é remoto, intermitente e a morte é diária. Carola